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A carteira de Campanhã

Um enigma policial em três camadas · 26 de agosto de 2026

Amélia Fonseca, 74 anos, professora primária reformada, foi encontrada morta às sete da manhã de quarta-feira no patamar do primeiro andar do prédio onde vivia, na Rua do Heroísmo, a dois passos da estação de Campanhã. Tinha uma pancada na cabeça e a mala de mão tinha desaparecido. O médico legista situou a morte entre as 21:30 e as 23:00 de terça. Às terças, Amélia ia ao ensaio do coro da paróquia, das 20:00 às 21:15, e voltava a pé — dez minutos, sempre pelo mesmo caminho.

Vivia sozinha desde que enviuvara. A vista já não a ajudava com ecrãs: o neto Tiago, quando vinha de Lisboa, ia-lhe ao multibanco, e a filha Cristina tratava-lhe das contas no papel. A luz da escada do prédio tinha o temporizador avariado há semanas; à noite subia-se às escuras, e Amélia queixava-se disso a quem a quisesse ouvir.

O cartão só foi cancelado às 10:20, quando Cristina se lembrou dele. Nessa altura o banco já mostrava dois movimentos da manhã:

06:41 — LOJA CONVENIÊNCIA EST. CAMPANHÃ — 68,40 € 07:12 — PASTELARIA FLOR DO HEROÍSMO — 4,60 €

A empregada da pastelaria lembrava-se bem: às sete e dez, Válter, "o rapaz que dorme no terreno ao lado da estação", pediu um galão e um pão com fiambre e pagou com cartão, encostando-o à máquina — coisa que ela nunca lhe tinha visto fazer, porque ele paga sempre em moedas e a contar. Na loja da estação ninguém se lembrava de nada: àquela hora é uma fila de gente para o primeiro comboio, e o que se vende é tabaco, água e jornais.

Para a PSP, estava tudo dito. Válter ficou com a mala, gastou o cartão de manhã enquanto pôde — tabaco para revender, o pequeno-almoço — e deitou a carteira fora. A carteira apareceu mesmo, sem dinheiro, num caixote do lixo da praça da estação.

Os suspeitos

Válter Nogueira, 34 anos, sem residência fixa, dois processos por furto. Diz que encontrou a carteira no caixote da praça pouco antes das sete, tirou o cartão, comprou o pequeno-almoço e deitou o cartão fora com medo. Não sabe explicar a compra das 06:41, "porque não fui eu". Dorme a cinquenta metros do prédio de Amélia e a empregada da pastelaria viu-o com o cartão na mão. É o nome que a PSP tem no processo.

Cristina Fonseca, 52 anos, filha, auxiliar de ação médica no Hospital de Santo António, a dez minutos de carro. Tem chave do prédio e da casa. Dívidas de um restaurante que fechou, e o apartamento da mãe, sem hipoteca, vale mais do que tudo o que ela tem. No calendário da cozinha de Amélia, na terça-feira, a letra dela: "C. — 20h". Cristina hesitou quando lhe perguntaram quando viu a mãe pela última vez, e depois disse que tinha sido no domingo. Registo de ponto do hospital: entrada 19:52, saída 08:04.

Tiago Fonseca, 27 anos, neto, operador de call center em Lisboa. A mãe admite que ele "andava outra vez metido nas apostas" e que a avó lhe tinha emprestado dinheiro duas vezes este ano. Estava em Lisboa: jantou com a namorada, cedo, por volta das sete, "porque no dia seguinte entrava às nove e meia e queria deitar-se cedo", e foi para casa. Na quarta chegou ao trabalho às dez e um quarto, atrasado, coisa que o chefe notou porque nunca acontecia. Soube da morte da avó por telefone, ao meio-dia, e apanhou o comboio para o Porto à tarde.

Abílio Carneiro, 68 anos, eletricista reformado, vizinho do rés-do-chão. Há um ano que queria comprar o apartamento de Amélia para juntar ao dele, e ela recusava; discutiam por isso e pelo barulho da televisão. Era ele que tinha prometido arranjar o temporizador da escada "esta semana", há três semanas. Diz que esteve no café da esquina a jogar dominó até às onze e meia; os parceiros confirmam.

A inspetora

A inspetora Helena Brito, da Judiciária, recebeu o processo na quinta de manhã. Leu-o de ponta a ponta, pediu o extrato completo do cartão ao banco e o horário do coro à paróquia, e ficou uma hora ao telefone com a porta fechada. Depois pediu um mandado e disse ao motorista que iam precisar do carro o dia inteiro.

Ao fim da tarde, alguém foi detido.

Quem foi?

  • A) Válter Nogueira
  • B) Cristina Fonseca
  • C) Tiago Fonseca
  • D) Abílio Carneiro

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